
A ´Páscoa além do folar
A propósito da Páscoa, volta a surgir um discurso já bem conhecido, o dos excessos alimentares, das amêndoas, do folar, das refeições prolongadas e da preocupação com a compensação. Na verdade, este é um tema que atravessa várias ocasiões festivas ao longo do ano, sempre que os alimentos ganham maior presença no convívio e na celebração, e talvez por isso faça sentido olhar para estes momentos por outro prisma.
Comer não é apenas responder a uma necessidade fisiológica, também é partilhar, celebrar, manter tradições e reforçar laços. Hoje, sabemos que uma alimentação saudável não depende apenas daquilo que se come, mas também do ambiente em torno da refeição e da relação que se constrói com os alimentos. No padrão alimentar mediterrânico, a refeição surge não só como um conjunto de alimentos, mas também como um espaço de convívio e de relação com os outros.
Vários estudos têm mostrado que as refeições em família ou em grupo podem estar associadas a hábitos alimentares mais equilibrados e a uma maior ligação entre as pessoas. Isto é especialmente relevante numa altura em que tantas refeições do dia a dia são feitas à pressa, entre compromissos, em frente a um ecrã ou sem verdadeira atenção ao que se está a comer.
Nesse sentido, a questão mais interessante nestas ocasiões talvez seja esta: "como viver este momento à mesa com mais consciência?". Comer devagar, saborear, conversar sem pressa, servir com critério, reconhecer os sinais de fome e de saciedade, parar para apreciar os alimentos e o próprio momento. A investigação tem mostrado que comer com mais atenção e com menos automatismo pode ajudar a regular melhor a quantidade de alimentos ingerida e a construir uma relação mais equilibrada com a alimentação. Não se trata de transformar a refeição num exercício rígido de controlo, mas de voltar a dar valor ao ritmo, ao sabor, ao aroma e ao próprio ato de comer.
Isto não significa ignorar os princípios de uma alimentação saudável. Continua a ser importante que, no conjunto dos dias, exista equilíbrio, variedade e predominância de alimentos pouco processados. A saúde não se decide num almoço de domingo, tal como não se perde num pedaço de folar, constrói-se, isso sim, na repetição dos hábitos ao longo do tempo.
Talvez esta seja, afinal, uma boa mensagem para a Páscoa: à mesa alimenta-se mais do que o corpo, alimentam-se memórias, afetos, tradições e relações, e isso também faz parte de uma vida saudável.
